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Como é a primeira sessão da Terapia de Casal

Postado por Bruno Mello em 16/05/2018 21:28:38


Assim como todo processo terapêutico individual, o casal que vêm para a Terapia de Casal já vem com uma demanda, ou seja, um problema pré-formatado em suas mentes que norteia uma terapia, normalmente quando este já se tornou insuportável o suficiente, culminando em que um dos cônjuges obrigue o outro a fazer terapia. Obrigação. Esta é comumente a palavra que um dos cônjuges emprega, justamente porque nem sempre a Terapia é um comum acordo.

A primeira ligação, o primeiro contato, já diz muito sobre quem quer mudar e quem não vê o problema, não o assume ou não o credita como verdadeiro. O momento da ligação já delata a perspectiva que um dos pacientes tem de futuro da relação e sua visão sobre o outro. Dificilmente o cônjuge admitirá sua corresponsabilidade no conflito.

Quando o casal vem para a primeira consulta, vem com um discurso fechado. Dizendo que “Ele(a) não faz mais sexo comigo”, “A gente não têm mais intimidade alguma”, “Eu não consigo confiar nele(a)”, e tantos outros dizeres que provavelmente já foram ditos milhares de vezes entre si até que pudessem ser ditos para um terceiro imparcial.

Mais importante do que o problema, pronto, fechado, autodiagnosticado, é a história do casal. Todos os problemas que hoje são visíveis e incômodos um dia, ou atualmente, fizeram parte da história de cada um e, inescapavelmente, parte da história familiar.
Como destrinchar um discurso pronto de um casal que vêm para a terapia com um problema tão quadrado e óbvio? Existem inúmeras verdades escondidas por trás de algo que já é percebido como problema.

Trabalhar com casais é algo breve, percebe-se o conflito e foca-se nele. A primeira sessão norteia a terapia na resolução do problema, demonstra quem vê o problema e quem prefere manter as coisas como estão para não se prejudicar ou pelo medo da mudança. Portanto, o trabalho do Terapeuta na primeira sessão é ouvir, assim como na Terapia Individual. Absorver ao máximo de conteúdo com atenta audição para que não se torne parcial, não tome lados, não seja aliado de um e inimigo do outro, o que, invariavelmente, os pacientes acharão que acontece, mas sob hipótese alguma pode acontecer.

Todo ser humano já traz consigo uma história familiar que pauta seu comportamental, sua necessidade pelo outro, sua autonomia, seu desejo, seus conflitos e outros. Esta é a procura inicial que o Terapeuta fará, observar a dinâmica do casal, ou seja, como ele se relaciona. Algumas perguntas chaves poderão dar muito conteúdo de trabalho:

  • Qual o problema que traz o casal à terapia?
  • Quem fez o contato e demonstrou interesse na terapia?
  • Quem é responsável pela casa e pelas contas?
  • Quem toma as decisões?
  • Quanto tempo estão juntos?
  • Como se conheceram?

Sempre ocorre uma triangulação entre os cônjuges e o terapeuta, ou seja, um cônjuge fala para o terapeuta, este absorve e devolve para um, outro ou ambos. Após o estabelecimento do vínculo, para que o terapeuta saiba ter controle sobre as revoltas do casal, será possível que um fale olhando para o outro, tendo o terapeuta apenas como observador, não como mediador. Desta forma é importante estabelecer regras, desde a primeira sessão. Quando um cônjuge está falando o outro deve respeitar seu tempo, não se interpondo.

Sobre a história familiar individual é interessante uma sessão individual posterior com cada cônjuge, assim, sem represálias, é possível que seja exposto o histórico de criação, importantíssimo para a definição de personalidade e padrão funcional da pessoa. Padrão este que agiu como possibilitador da união e que, possivelmente, é o que faz hoje ser também difícil manter a união.

Em suma, a primeira sessão é a descoberta e a desmistificação do “falar sobre nós”. Diferente de, individualmente, expor para alguém sobre o cônjuge quando se conversa com um amigo, utilizando da culpabilização e pouco da busca de resolução. Estar presente junto com o parceiro em terapia é enfrentar a sua parte no problema. É a luta interior contra o orgulho que aponta quem é o culpado, em detrimento de minha própria culpa, é assumir que não há mudança no relacionamento se não houver mudança mútua. Em terapia de casal não existe o inocente e o vilão, existe o problema e a comum corresponsabilidade.