Erro

Um compromisso consigo

Postado por Francisco Tiago Castelo Leitão da Silva em 18/08/2021 09:44


Fala-se comumente que uma terapia é um processo "mágico", "encantador" ou coisa de natureza extraordinária. Como se o paciente precisasse apenas estar presente e pagar pelas sessões, e que o resto fica por conta do terapeuta, que com sua varinha, fará a "mágica" acontecer. Engana-se quem assim pensa. E é fundamental, para que não haja enganações, entender que um processo de análise ou de terapia não é "mágico", num sentido de que, por si só, irá resolver as questões que causam sofrimento para o paciente que busca acompanhamento. O instrumento de um psicólogo não é uma varinha, mas sua formação, seu conhecimento e experiência sobre os conceitos e técnicas das quais ele faz uso em seus atendimentos. E ainda assim uma terapia demanda do sujeito um compromisso consigo mesmo e com o processo terapêutico. Psicólogo algum, seja de qual linha teórica for, seja quanto tempo de experiência tiver, é capaz de fazer com que magicamente os conflitos de seus pacientes se resolvam. E isso se dá exatamente porque uma terapia ou análise é um processo onde um psicólogo está lá para acompanhar o paciente dando, ele mesmo, destino a sua vida. Um psicólogo que se propusesse a resolver magicamente as questões de um paciente seria aquele que tiraria do paciente a responsabilidade dele pela própria vida. E uma terapia é também uma forma de desenvolver sobre si mesmo responsabilidades - é, aliás, apenas sendo responsável por si mesmo que as coisas andam com menos desordem.

Aliás, um conselho: diante de um psicólogo que oferecer uma cura ou resolução mágica para as questões centrais de seu sofrimento ou mesmo de sua vida, para seu próprio bem, fuja! Um psicólogo ético sabe que uma terapia é antes um espaço onde o sujeito irá, a partir de seus próprios recursos, movimentar sua vida, articular suas questões e dar seus próprios passos. Há casos e mais casos de pessoas que confiaram o direcionamento de suas vidas a outros e tiveram consequências desastrosas.

Para que uma terapia ou análise ande, é necessário que o paciente se responsabilize por ela. Estamos em tempos de comunicação muito frágil. As mensagens eletrônicas, como temos no whatsapp, instagram e outras redes de troca de mensagens, são ao mesmo tempo uma forma de acelerar a comunicação quanto de retirar do comunicador a sua presença e a sua responsabilidade.

Exemplos práticos que provavelmente poderia ocorrer em sua própria vida: uma relação de trabalho com sua empresa não se encerra por simples mensagem; um namoro ou casamento não se encerra por mensagem. Uma terapia, que é antes um compromisso com você próprio, também não deveria ser assim. Pois é a sua vida que está sendo tratada ali. E além de sua vida, há a presença e o trabalho que um profissional está, a cada sessão, construindo um processo com você.

Posicionando-se de forma responsável com seu processo terapêutico, certamente efeitos ocorrerão. Primeiro de tudo porque assim você estará pondo a si mesmo em lugar de destaque em sua vida. É preciso estar implicado no próprio desejo - desta forma não atribuímos a responsabilidade de nossas questões aos outros. Isso vale para a vida e para a terapia. Muitos pacientes que sustentam seus processos se dão conta, em um momento ou outro, que a causa de seus sofrimentos, que eles inicialmente atribuíam aos outros (pai, mãe, marido, espaço, colega do trabalho, etc.), se deu na verdade por terem aberto mão de se responsabilizarem pela própria vida. E acerca de um tratamento, um psicólogo estará com sua experiência e conhecimento para, de certo modo, acompanhálo em seu processo. Acompanhar é diferente de tomar o controle. E essa é uma diferença valiosa.