Erro

"Eu só estava brincando..."

Postado por Flavia Franciny Costa Rojas em 23/03/2022 12:23


“Tais piadas não parecem de todo defensivas - um pouco de humor tem a função de compartilhar alegria e divertimento. Na outra extremidade do espectro, a compulsão por ser engraçado pode ser extremamente defensiva; não são poucos os que conhecem alguém que, quando convidado para um diálogo sincero, não consegue parar de fazer brincadeiras.” (McWilliams, 2014)

 

Nesse trecho a pesquisadora e psicanalista Nancy mcwilliams nos mostra uma defesa humana muito comum, mas que quando se torna recorrente e em toda e qualquer situação nos aponta uma questão crítica sobre a forma como uma pessoa encara os conflitos da vida. E que ao invés de só ajudar, aos poucos constroem uma armadura.

 

Você já se pegou fazendo piada ou diminuindo uma situação que de fato te feriu? É muito comum na clínica ouvir pessoas que no dia-a-dia optam por esse caminho diante de situações que causam dor. Muitas vezes  a pessoa conta uma situação de violência (física ou psicológica), abuso emocional, traumas de infância, brigas familiares ou conflitos interpessoais rindo ou fazendo piada. Não raro acompanha a frase “ fazer o que, só posso rir”. 

 

Quem olha de fora  pensa com toda certeza que a situação não provoca ou nunca provocou abalo emocional algum e que a pessoa lida bem com aquilo. Porém não é o que acontece na maioria das vezes. Não raro, ao contar o fato na terapia,  a pessoa se dê conta da gravidade do que viveu e passa a ter um humor diferente do que vinha apresentando até então. Isto é, não raro a pessoa se permite sentir o que de fato aquela situação provocou nela, antes de tentar encobrir com piada. Ela abre passagem para outros afetos que a experiência despertou.

 

É comum usarmos estratégias que nos distanciem de situações dolorosas ou que amenizem a seriedade do que estamos tentando dizer. Entretanto, essa estratégia também pode estar escondendo tanto do outro quando de nós mesmos sentimentos que uma situação pode despertar. O medo de entrar em contato com esses sentimentos e sempre escondê-los através do humor pode nos levar ainda que sem querer a uma invalidação do que sentimos. Com isso, construímos fortalezas que nos protegem daquilo.

 

Precisamos estar atentos a isso e perceber o quanto o humor mais do que uma reação espontânea tem servido como anestesia frente a situações que não queremos encarar. Se ele é um recurso que acessamos quando queremos ou se ele se impõe; e nos leva  muitas vezes a sairmos de conversas sérias com a sensação de que fomos esmagados pela situação e mais uma vez não falamos o que gostaríamos, passamos por cima de sentimentos ou ignoramos coisas que antes pareciam importantes. 

 

Usar o humor como maneira de encarar certos eventos da vida não é por si só uma estratégia ruim, porém, assim como falávamos em ditados populares, relembros um deles agora que diz “a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”.

 

Psicóloga Flávia Costa 
CRP 05/60279
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* MCWILLIAMS, Nancy. Diagnóstico psicanalítico: entendendo a estrutura da personalidade no processo clínico. 2ed. Artmed, Porto Alegre, 2014, p.170