Erro

A medida que falo, teço sentidos para o que me atravessa

Postado por Francisco Tiago Castelo Leitão da Silva em 05/11/2020 12:45


Clarice, lendo Fernando Pessoa, depara-se com a frase: "falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos". É interessante deter-se um pouco nessa ideia, visto que ela parece ser o contrário do que imaginamos sobre falar de si: pensamos que quanto mais falamos de nós, mais nos tornamos conhecidos por nós mesmos. O que a frase de Pessoa resgatada por Clarice nos diz é que há um ponto de desconhecimento sobre si em cada sujeito. Uma análise permite ao sujeito que fala deparar-se com suas divisões, suas contradições e seu lugar diante daquilo que se queixa. E esse processo não é um contínuo alcance da verdade que o sustenta, mas antes uma contínua descoberta de que pouco se sabe sobre si mesmo: é a medida que falo que vou percebendo que pouco sei daquilo que sustenta o meu sofrimento. Há uma verdade por trás de nossas palavras que, a medida que falamos num processo analítico, nos deparamos com sua dimensão desconhecida.

Um sujeito que se dirige a um analista o faz a partir de uma demanda determinada, geralmente que lhe causa sofrimento, e é a partir dela que novos significantes surgem, possibilitando uma costura de novos significados ao redor de sua queixa. É uma travessia a análise, que vai nos pondo diante de novas verdades que desconhecíamos em nós mesmos, e que por outro lado determina nossas fantasias sobre a vida. Essas fantasias que guiam nossas vidas são os rastros que um analista segue, apresentadas através das queixas dos sujeitos, de seus ditos, de modo que o analisando possa fazer algo com seus empasses, com seus desejos e, enfim, com sua posição diante do Outro. É a medida que falo que teço sentidos para o que me atravessa.

Embora estejamos todos atravessando um período que demanda que fiquemos presos em casa, a fala precisa circular. Atravessar a vida tem seus percalços, e atualmente estamos vivendo de modo compartilhado um percalço universal: uma pandemia. E embora universal, cada sujeito tem seu modo singular de estar diante disso. Não há fórmulas gerais que dêem conta de aliviar um sofrimento que é singular; e é através da fala que essa dimensão de singularidade se mostra, pondo em cena o enquadre único do sujeito diante de suas questões. É nessa singularidade que uma psicanálise se interessa. É a partir do entendimento dos recursos próprios que um sujeito tem com seu psiquismo que surge a possibilidade de inventar um modo de atravessar as dores e as alegrias de viver.