Autoestima baixa na adolescência? Sinais e como os pais ajudam

Por Central Psicologia•• 9 min de leitura

A autoestima do adolescente costuma cair por volta dos 11 a 13 anos. Estudos que acompanham os mesmos jovens por vários anos costumam encontrar esse vale, seguido de uma recuperação gradual até o fim da adolescência. Por isso, uma queda isolada não diz muito sozinha. O que pesa é quanto tempo ela dura e o quanto invade a rotina dele.

Como a autoestima se forma nessa fase

Na infância, a imagem que a criança tem de si costuma vir mais de casa. Na adolescência, ela passa a depender do olhar dos colegas. Um comentário debochado numa foto no grupo da turma pode pesar mais do que dez elogios feitos em casa, porque o que está em jogo é o pertencimento.

Outra mudança é a comparação, que ficou constante com as redes. O adolescente compara os próprios bastidores, a semana comum, o quarto bagunçado e as dúvidas, com o melhor momento de todo mundo. A sensação de estar ficando para trás aparece mesmo quando nada objetivo mudou.

Duas pressões costumam pesar mais:

  • Estética: cobrança sobre corpo, pele e altura. Nos meninos, muitas vezes aparece como cobrança por musculatura.
  • Escolar: nota abaixo do esperado ou comparação com o irmão mais velho, que parece sempre ter sido o melhor aluno.

Por isso, a autoestima muda com facilidade. Uma nota ruim, uma briga com a melhor amiga ou uma semana boa mexem nela de um dia para o outro, e isso é esperado.

Sinais de baixa autoestima que merecem atenção

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Nenhum desses sinais, sozinho, diz muito. Um adolescente pode recusar um convite porque está cansado ou tirar nota baixa numa prova difícil. O que pede atenção é a combinação de comportamentos que se repetem e se mantêm por semanas. Estes são os principais:

  1. Isolamento. Ele deixa de encontrar os amigos que frequentava, recusa convites seguidos ou passa a almoçar sozinho na escola por semanas. Uma rotina que muda aos poucos merece olhar.
  2. Autocrítica constante. Frases como “sou um fracasso”, “ninguém gosta de mim” ou “eu estrago tudo” aparecem toda semana, inclusive num dia em que ele teve um bom resultado. Observe se a crítica continua mesmo quando há um fato positivo para contrariá-la.
  3. Queda de desempenho. As notas caem aos poucos, ele começa a faltar à aula de educação física ou à apresentação em público, e perde o interesse por matérias que antes gostava.
  4. Sinal que pede avaliação mais rápida. Choro frequente sem motivo claro, ideias de desaparecer ou falas sobre não querer viver. Nesse caso, não espere: procure ajuda hoje, com um médico, a UPA ou o CAPS infantojuvenil da sua região. Se ele falar em se machucar ou em morrer, leve-o a um serviço de emergência na hora.

Para separar um mau momento de um padrão, pergunte a si mesmo se algo parecido já aconteceu antes, por quanto tempo dura e se está afetando a escola, a casa ou as amizades. Quando as respostas apontam para um padrão, o passo seguinte é conversar com ele, e não apenas observar.

Mito: elogiar sem parar aumenta a autoestima do filho

Muitos pais acham que, quanto mais elogios, melhor. Só que o elogio genérico, como “você é o melhor”, tende a soar vazio: o adolescente percebe quando está sendo agradado, e para quem já se acha pouco pode até reforçar a sensação de não ser bom o bastante. O que sustenta a autoestima é o reconhecimento específico de algo que ele fez ou de um esforço que você viu, como “você revisou a redação três vezes antes de entregar”. Essa frase mostra que você prestou atenção, e ele aprende a reconhecer o próprio valor sem depender só da aprovação de fora.

Para isso, siga esta ordem:

  1. Observe o esforço, não só o resultado.
  2. Descreva o que viu, com detalhes concretos.
  3. Evite fechar com um veredito sobre quem ele é.

Como conversar com o adolescente sem parecer que julga

Conversa boa com adolescente quase nunca começa de frente. Ela costuma acontecer de lado: no carro, cozinhando junto, numa caminhada. Uma pergunta direta na mesa do jantar tende a virar interrogatório, e ele responde o mínimo para sair dali.

  1. Escolha um momento sem cobrança. Pode ser um trajeto de carro ou uma caminhada. Quanto menos ele sentir que está numa sala de entrevista, mais a conversa flui.
  2. Descreva o que você viu, sem rotular. Diga “notei que você não quis sair com o pessoal nas últimas três sextas”, e não “você está se isolando”. O primeiro é um fato que ele pode confirmar ou corrigir; o segundo é um veredito que ele precisa defender.
  3. Pergunte antes de opinar e aceite respostas curtas. Se ele disser “normal”, não insista naquele momento. Volte no dia seguinte com outra pergunta leve, como “o que foi o melhor do seu dia?”.
  4. Evite comparações e piadas com a aparência. Nada de comparar com o irmão, a prima ou a filha da sua amiga, nem brincadeira sobre peso. Um comentário desses pode ficar registrado por anos, mesmo que você já tenha esquecido.

Ele pode não responder na primeira tentativa. Isso não significa que a conversa deu errado. Significa que ele percebeu que você está disponível para ouvir quando ele quiser.

O que a escola pode fazer e quando buscar psicoterapia

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Na sala de aula, o professor costuma notar primeiro. Vale registrar mudanças concretas: o aluno que deixou de participar, que parou de ler em voz alta, que pede para trocar de dupla com frequência ou que comenta o próprio corpo. Ao levar isso à coordenação, o relato traz fatos (o que aconteceu, quando e o que foi dito), não diagnósticos.

A coordenação pode combinar uma conversa conjunta com a família, comparando o que cada lado observou. Também cabe à escola cuidar da exposição. Comentar a nota da redação dele em voz alta, diante da turma, pode fazê-lo se fechar ainda mais.

Psicoterapia faz sentido quando o problema se mantém em vez de passar sozinho e começa a pesar nos estudos, nas amizades ou no que antes dava prazer ao adolescente. Não é preciso esperar que a situação piore para buscar ajuda. No consultório, ele tem um espaço para falar sem ser corrigido a cada frase, e esse espaço costuma fazer diferença para quem vive se criticando.

Na rede pública, a UBS da região é o primeiro ponto de partida. Um psicólogo com experiência em adolescentes pode avaliar o caso e indicar o caminho. Se escola e família perceberam coisas diferentes, juntar as duas observações antes de decidir mostra o quadro inteiro.

Quando procurar ajuda

Procure ajuda profissional quando o sofrimento persiste e começa a mexer na rotina, sem precisar esperar que a situação piore. Alguns sinais concretos merecem atenção:

  • faltas à escola que se repetem sem explicação clara;
  • mudanças no sono ou no apetite que duram e aparecem junto com isolamento dos amigos e da família;
  • autocrítica constante que não diminui, mesmo com acolhimento em casa.

Uma autoestima que fica baixa por muito tempo pode aparecer junto com ansiedade ou depressão. Às vezes o adolescente vive preocupado o tempo todo e evita situações novas; em outros casos, surgem tristeza, perda de interesse pelo que antes gostava e cansaço constante. Esses quadros se parecem e se misturam, e pedem condutas diferentes. Por isso, só um profissional consegue separar um do outro. Pais e escola podem perceber que algo mudou, mas não têm como fazer esse diagnóstico em casa, mesmo com boa intenção.

Se esses sinais se mantiverem, anote o que vocês observaram, desde quando e em que situações. Esse registro ajuda o profissional a entender o quadro desde a primeira consulta, inclusive a perceber se a dificuldade com a autoestima vem acompanhada de outras queixas.