Postado por Laís Comini em 19/03/2025 07:39
Sofremos! e por quê sofremos?
Freud sugeriu três fatores principais como fontes de sofrimento, todas ligadas à nossa existência humana e às tensões entre o inconsciente e a realidade. Esses fatores seriam:
A fragilidade do corpo fisiológico: Nosso próprio corpo é uma causa de sofrimento, já que somos vulneráveis a doenças, ao envelhecimento e, eventualmente, à morte. Essa realidade física nos impõe limitações e nos lembra constantemente da nossa finitude.
As forças implacáveis da natureza: O ambiente que nos circunda frequentemente nos impõe situações adversas e desafios inevitáveis — como catástrofes naturais, transformações socioculturais e outras forças que escapam ao nosso controle. Freud acreditava que a luta para nos adaptarmos a essas forças externas gera sofrimento.
As relações interpessoais: Nossas conexões com outras pessoas são uma fonte significativa de alegria, mas também de dor. Freud observou que os conflitos, frustrações e perdas nas relações humanas podem ser profundamente angustiantes, especialmente porque, muitas vezes, nossos desejos inconscientes entram em choque com as expectativas e demandas sociais.
Em um outro momento na teoria, Freud também discutiu o papel do princípio do prazer e do princípio de realidade no sofrimento. Enquanto buscamos evitar a dor e obter prazer, somos constantemente confrontados com a necessidade de adaptar nossos 'impulsos' às exigências da realidade, gerando frustração e sofrimento psíquico. Dentro dessa teoria, é essencial compreender que somos constituídos por pulsões que constantemente demandam satisfação. Seja realizando ou evitando algo.
Freud também postulava que o sofrimento pode originar-se de conflitos inconscientes entre as estruturas psíquicas: o id (ou "isso", que representa os impulsos instintivos), o ego (ou "eu", responsável por mediar entre o id e a realidade) e o superego (ou "supereu", que simboliza as normas e os ideais morais). Esses conflitos têm o potencial de gerar angústia, mal-estar e até mesmo sintomas neuróticos.
Já na perspectiva psicanalítica de Lacan, o sofrimento é profundamente relacionado à estrutura do sujeito, que é constituído pela linguagem e pela falta. Para Lacan, o sujeito não é um ser pleno, mas está inevitavelmente dividido entre o desejo e a realidade, sendo atravessado por estruturas inconscientes que moldam sua experiência psíquica.
O sofrimento surge, em primeiro lugar, da falta estrutural que define o sujeito. Essa falta é inerente ao processo de entrada na ordem simbólica (linguagem e cultura), que aliena o sujeito de sua suposta completude original. No momento em que somos inseridos na linguagem, perdemos a possibilidade de acessar diretamente aquilo que supomos nos satisfazer completamente. Isso gera o desejo, que é sempre marcado pela impossibilidade de ser plenamente satisfeito, perpetuando o sofrimento como parte da experiência humana.
Além disso, Lacan conecta o sofrimento ao desejo do Outro. O sujeito busca incessantemente o reconhecimento do Outro, mas esse reconhecimento é sempre parcial ou insuficiente, reforçando a alienação e a frustração. O "outro" lacaniano pode ser entendido tanto como o 'outro' sujeito (nas relações interpessoais) quanto como, Outro, na ordem simbólica (as normas e valores da cultura).
O sofrimento também está ligado à divisão do sujeito entre o que deseja inconscientemente e o que é exigido pela realidade. O inconsciente lacaniano é estruturado como uma linguagem e opera por meio de formações como os sintomas, que podem ser expressões de sofrimentos derivados de conflitos entre o desejo reprimido e as exigências do simbólico.
Por fim, Lacan explora o sofrimento no contexto do gozo (jouissance), que vai além do prazer. O gozo é uma experiência paradoxal, que pode ser ao mesmo tempo prazerosa e dolorosa, e está ligada à insistência do sujeito em buscar algo que o leva além do limite do suportável. Essa relação com o gozo evidencia como o sofrimento pode ser, de certa forma, "escolhido" inconscientemente pelo sujeito, como uma forma de satisfazer parcialmente o desejo.
Além de ser uma experiência intrínseca aos sujeitos que ingressam na linguagem, o sofrimento também se apresenta como algo profundamente singular. Cada indivíduo, com sua bagagem única de vivências, sua rede de significantes e sua maneira particular de atribuir sentido ao mundo, insere em sua história os sofrimentos que, de alguma forma, lhe são próprios. Isso vai além da ideia de "sofrimentos o que podemos suportar", pois, em certo sentido, o sofrimento carrega inevitavelmente a marca da nossa subjetividade, quase como uma assinatura pessoal. E é essa "liberdade", inclusive de escolha dos próprios sofrimentos, que encontramos numa análise.
Então, por quê sofres?