Erro

Porque é tão difícil se separar?

Postado por Bruno Mello em 16/05/2018 21:27:04


Por vezes os casais chegam para o consultório com queixas sobre suas dificuldades, às vezes desesperançosos, estressados, sem dormir, sem transar, sem conseguir trabalhar, brigando muito, não se aguentando mais, ou seja, descendo rapidamente a ladeira. Mesmo com tantas dificuldades, ainda procuram auxílio profissional porque, de alguma forma, gostariam de uma reconciliação, uma tentativa, uma, talvez última, chance, ou mesmo de um profissional que possa lhes dar um veredicto.

Porque vocês estão aqui?

Não importa se estamos falando sobre um casamento ou sobre um namoro de longa data, toda relação que se tornou profunda e permitiu enraizamento também estabeleceu um elo. Este, como relação forte, levou tempo e dedicação. Talvez por este, também mas não apenas, motivo sejamos tão relutantes em botar fim na relação.

Primeiramente lhes questiono, “qual o motivo que lhes trazem à terapia?”. Alguns casais fazem momentos de silêncio, se olham, se empurram, outros começam a falar ao mesmo tempo, outros ainda, de forma cômica parecem ter um bastão da fala, quando um fala o outro cala, meio emburrado meio esperando sua vez.

Os motivos problemáticos para um dos cônjuges é o mesmo para o outro? Há coesão no conflito? Ambos veem que há algo a ser resolvido? Veem uma possibilidade de resolução? Porque não conseguem resolver sozinhos?

Nos entregamos de formas que dificilmente faríamos conscientemente mas, por amor, nos permitimos. Depois de tanta entrega, tanta presença, tanta importância, retirar alguém ou ser retirado da vida desse alguém é quase como um falecimento. Inclusive é visível a semelhança sintomática entre casais que se separaram e enlutados que perderam um ente querido recentemente.

Quão fundo vai a relação?

O elo é o que mantêm a relação estável, é a união precipitada no dia-a-dia fortalecendo ou enfraquecendo a relação, de acordo com o que cada cônjuge está construindo. Temos o errôneo pensamento que o tempo de relacionamento deve nos unir mais, contudo o tempo que dois estão casados não é parâmetro de um bom relacionamento. O tempo deixa as pessoas mais parceiras, até mais solidárias uma com a outra, porém também pode criar um peso na relação.

Todo casal passará por problemas, mas a permanência desses problemas é o que criará algo maior, mais crônico, às vezes quase insolúvel. Dores como frustrações não resolvidas, brigas recorrentes pelos mesmos assuntos, insuportáveis manias, chatices, situações que nos desmotivam, nos enfraquecem e fazem pensar que talvez fosse melhor não continuar junto.

Como vai a disposição do casal para resolver o conflito? Vocês procuram auxílio e estão realmente interessados em enfrentar a si mesmos, suas personalidades e diferenças? Não há mágica em Terapia de Casal. Há um conflito, por inúmeras questões ele se mantêm, mapeamos as possibilidades e damos as cartas nas mãos de cada cônjuge e esperamos que, cooperando, se juntem para resolver o conflito.

O mais comum, contudo, é justamente o oposto. A grande maioria dos casais está tão acostumada a encontrar culpados que fecha os olhos para a própria responsabilidade nos conflitos que se queixa. É inútil encontrar culpados pelos problemas, justamente por isso não trabalhamos com culpas, não levantamos indicadores e apontamos para alguém. Trabalhamos com responsáveis e corresponsáveis.

Sobre o “daqui para frente”

Esses persecutórios problemas enfraquecem o casal e o faz questionar: “O que vão pensar de mim se eu me separar?”, “Como vou fazer com meus filhos?”, “Me separar vai me quebrar financeiramente”, “E se eu não encontrar mais ninguém?”, entre outros. Os medos irreais e os enfrentamentos reais farão parte da separação simbólica, movida individualmente, até a separação física e matrimonial definitiva.

Primeiramente, separar-se implica em não ocupar mais o mesmo teto. Portanto, sair de casa é a primeira dificuldade real a ser enfrentada, deixar todas as memórias, lembranças, pegar suas trouxas e sair de casa, seja por um tempo ou definitivo. Sair de casa é deixar, metaforicamente, vários elos para trás, dizer para si mesmo que aquilo não é mais desejado e que é necessário seguir em frente. Sobretudo, a mudança de residência é uma saída da zona de conforto. Independente de quão ruim estivesse morar com o ex-cônjuge, já era sabido como seria, já se conhecia todas as possibilidades, mesmo que ruins. Portanto, para muitos, é preferível manter-se na complicada relação do que se arriscar em uma nova possibilidade que não se sabe como será.

Separar-se também pode obrigar a separação dos amigos em comum. Alguns poucos amigos poderão se manter imparciais e fraternos ainda assim com os dois ex-cônjuges, mas a grande maioria irá por tomar parte de um ou outro, o que não tem nada de anormal. Portanto, não somente a saída da zona de conforto explicita algo concreto, as amizades e a intimidade com esses amigos também pode ser comprometida.

Criar um vínculo e ser aceito pela família do cônjuge pode ter sido fácil ou difícil no início do relacionamento, no término o mesmo se aplica. Alguém que sempre foi criticado e alvejado como intruso ou agregado, mesmo que de forma velada e implícita, em uma família de fronteiras rígidas, será deixado facilmente, rejeição que é boa para quem termina mas ruim para quem é deixado. Por outro lado, as famílias mais calorosas e emaranhadas que aceitam facilmente o novo integrante entrarão em conflito para aceitar e superar a separação, movimentando um ou ambos para a (re)união, conciliação, ou, pior, tomando parte de um ou outro numa situação em que não deveriam influenciar.

Outro ponto marcante é o financeiro. Às vezes um dos cônjuges deseja muito a separação, mas acaba não fazendo isso porque tem medo de ter que se virar sozinho ou depende financeiramente, não tem perspectiva nem coragem de lutar sozinho ou até mesmo se sente acomodado demais com a dinâmica da relação e prefere manter isso a ter que voltar a estudar, trabalhar, ter que enfrentar novas dificuldades. Além disso, quando não é possível um acordo amigável de separação, é necessário contratar um advogado, o que pode ser caro.

Pouco importa se não há mais amor, se houve traição, se não é mais possível ficar fisicamente junto, se interesses de vida acabaram por divergir, é imprescindível o enfrentamento da questão com clareza. É possível uma mediação para que a separação seja amigável e que, se desejável, o convívio seja mantido. Ter a clareza de objetivo, ou seja, ter lapidada resposta para “porque eu estou me separando e porque não quero voltar atrás” é chave na tomada de atitude.