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Luto, Morte e o filme "Direito de Amar"

Postado por Bruno Mello em 16/05/2018 21:24:59


O filme "Direito de Amar", 2009, direção de Tom Ford, conta a história de George, interpretado por Colin Firth, um professor universitário de Inglês, vivendo em Los Angeles, em 1962, casado há 16 anos com Jim.

https://www.youtube.com/watch?v=-vtB4aI4naQ

A filmagem se inicia com a ligação de um parente de Jim. Jim foi parceiro de George durante 16 anos e acaba de falecer em um acidente de carro. Como agravante, a morte foi instantânea, impossibilitando então a despedida, já que a família nunca aceitou o relacionamento deles e também não aceitaria a vinda ao velório. Mesmo morando juntos, o relacionamento dos dois sempre foi velado, escondido, proibido.

"Jim e George"


 

Ambos são assumidamente homossexuais, contudo a relação é escondida no meio social. Diariamente George, professor, se apronta para suas aulas se adequando à sociedade quanto à comportamento e vestimenta, trajando sua máscara, misturando-se na multidão para ser apenas mais um, para esconder seu relacionamento e seu verdadeiro eu.

"Levo tempo de manhã para me tornar George. Tempo para me adaptar ao que se espera de George... e a como ele deve se portar. Depois que me visto e dou a última engraxada... o agora levemente formal, mas perfeito George... Sei bem o papel que devo desempenhar."

Por ter um relacionamento homossexual George se obriga a sofrer em silêncio, se esforçando diariamente para levantar da cama, mesmo tomando antidepressivos, não tem mais motivação para trabalhar, tem lembranças constantes de seu parceiro e sua vida com ele. Isso o faz sofrer, entretanto não pode chorar, sua posição social e profissão o proíbem, mas também ajudam a se proteger, negando o que aconteceu.

Cada pessoa compreende a dor da perda de uma forma, lida com ela de uma forma e a supera na sua velocidade. Logo no início do filme é mostrado que George já tendo perdido Jim a oito meses, já desesperançoso e desmotivado de viver, hoje em uma casa grande e bela, porém sozinho e, como o próprio diz com "medo de envelhecer sozinho". Esse é o seu processo de elaboração da perda, relutar contra ela, apesar da óbvia necessidade de aceita-la.

Essa mesma máscara é o sofrimento e o alento de George, ao mesmo tempo que tem que aparentar não sofrer também se protege da sociedade que o julgaria fortemente.


 

Uma metáfora utilizada no filme retrata o tempo, e a lentidão com que passa, ilustrando muitos relógios durante o filme todo, simbolizando tanto o tempo que passa vagarosamente quanto a sua própria vida, mais e mais próxima da finitude.  O dia-a-dia é vagaroso, pesado, oneroso, George luta para enfrentar a rotina massante enquanto enfrenta seu próprio luto.

Em uma de suas aulas encontra um aluno que o interessa, da mesma forma que vê o interesse recíproco não sabe qual a liberdade que poderá ter e nem se quer tê-la com um aluno. Conversas, presentes, trocas de afeto e intimidade levam eles a se aproximar. Mas George percebe, ao notar a inocência de seu aluno, o quanto estava tentando estancar seu sofrimento pela perda, e não poderia, nem que quisesse.

Ser aceito na sociedade

George é um homem bonito, atraente e, para todos, heterossexual. Contudo, de forma ambígua, se frustra com a forma que é tratado pelas mulheres, pelo símbolo que ele ostenta de beleza, atração, virilidade, quando, em verdade, gostaria apenas poder mostrar quem ele realmente é. Isso fica claro nas suas palavras em sala de aula:

"Vamos pensar em outra minoria. Uma que... pode passar despercebida se necessário. Há minorias de todo tipo. Loiros, por exemplo. Pessoas com sardas. Mas uma minoria é considerada como tal... só quando constitui um tipo de ameaça à maioria. Uma ameaça real. Ou suposta. E é aí que reside o medo. E se for uma minoria de certo modo invisível... então, o medo é muito maior. É por causa desse medo que a minoria é perseguida. Assim, sempre há um motivo. O motivo é o medo. As minorias são só pessoas. Pessoas como nós."

O Luto e seus estágios

O Luto é o processo de elaboração da perda de alguém querido, seja de fato a morte ou a falta, mesmo que ainda vivo, esta pode ser a perda de um cônjuge, um familiar, um amigo, ou mesmo um término. O enlutamento saudável costuma demorar até dois anos, ou seja, a grande maioria das pessoas que perde alguém importante demora até dois anos para compreender, elaborar e aprender a conviver com a falta.

Cada indivíduo e relacionamento possui um andamento próprio ao enfrentar a perda. Enquanto alguns podem se isolar, se deprimir, evitar familiares e entes queridos, outros agem com agressividade, autodestrutividade (com drogas, perigo, álcool), impulsividade, não medem consequências e agem de forma descuidada com a própria vida e com os outros. Resumindo, existem estudos que categorizaram o luto em estágios. Os estágios citados são referências da Psiquiatra suíça Elizabeth Kubler-Ross, sendo eles:

  • Negação
  • Raiva
  • Barganha
  • Depressão
  • Aceitação

Não existe regra ou ordem em um processo de luto. Alguns passarão lentamente por todas as fases, outros aceitarão a perda com rapidez. De toda forma isso não simboliza um melhor aparelhamento psíquico. "Lidar melhor" com a morte não é uma habilidade a se desenvolver. Podemos citar, talvez como diferencial mais importante no luto, a profundidade da relação. Quanto mais bem estabelecida uma relação for, mais difícil poderá ser a elaboração da perda.

O estágio inicial, "negação", é perceptível logo após a morte, quando não se permite sentir a perda, não se lida com a falta ou mesmo se ignora o fato. O estágio seguinte, "raiva", é caracterizado pela revolta contra o mundo, contra a injustiça, iniciando a aceitação da perda, mas de uma forma agressiva, seja com palavras ou fisicamente.

Em seguida vem a "barganha" ou "negociação". Neste é comum um mecanismo interno de troca, inicia-se uma aceitação mais calma e contemplativa, mas ainda relutante, marcada pelos questionamentos do "porque isso foi acontecer justamente com ele(a)" ou "eu aceitaria que fosse eu a morrer" ou "preferiria ter ido no lugar dele(a)". A barganha se caracteriza por este essa proposta, "porque não o(a) poupou? eu teria morrido por ele(a)".

O último estágio, por fim, é a "Aceitação". Somente neste estágio estamos prontos para dizer adeus, seguir com nossas vidas e ressignificar a relação. Independente de quão bem elaborada a morte esteja, podemos não deixar de sentir saudade, entretanto aprendemos a conviver com a dor.

Como superar a perda

Não há caminho mais curto, nem segredo algum. Aos poucos, com o passar do tempo, cada um elaborará sua perda como pode, seja revivendo bons momentos, tentando esquecer, abandonando os locais que fazem lembrar da pessoa ou mesmo os visitando frequentemente. A fuga disso tudo, em realidade, é inútil. O sofrimento não está nas coisas, nas lembranças, no enterro, na convivência. O significante da dor está na compreensão das situações e em nós mesmos. Tentar fugir é ignorar o que o nosso próprio corpo diz. É crucial aceitarmos que precisamos sofrer a perda para aprendermos a supera-la. Relutar em sentir a perda também é negar o valor da pessoa perdida e negar a si próprio o direito de dizer o quanto sente falta.