Erro

Celine, Jesse e a “busca de todo dia”

Postado por Bruno Mello em 16/05/2018 21:29:57


 

Uma belíssima trilogia sobre um casal que se conhece ao acaso e que, em pouco mais de uma noite, conversam e se apaixonam é a breve sinopse que define este amor.


Atenção, esta postagem possui spoilers sobre a trilogia cinematográfica “Antes do Amanhecer”, assista antes de prosseguir.


Antes do Amanhecer (1995)

“Antes do Amanhecer” (1995) conta deste americano, Jesse, que viaja pela Europa e conhece a bela francesa Celine, em uma viagem de trem. Após breve contato, Jesse a convida para apenas conversar, e é isso que eles fazem, somente isso, durante a noite toda. Rapidamente o espectador se apaixona, e facilmente também, pela impetuosa e impulsiva atração de um pelo outro. Terminada esta, tão breve e ágil, noite, Celine tem que pegar o trem para voltar a sua cidade. Nesta despedida, sem trocar nenhum contato, ambos se despedem prometendo que irão se encontrar ali, na mesma estação de trem, seis meses após.

 

As belas cenas com tons de paixão juvenil e desejo mostram como é fácil apaixonar-se por quem, por mais que possua e exponha seus interesses comuns, verdadeiramente não se conhece. Nas suas mentes ficará eternizado, até o momento, aquela fatídica noite, o amor que tiveram, o rápido enlace e a demorada despedida. Pode ser que nunca mais se encontrem, pode ser que seis meses esqueçam um do outro, ou até em menos tempo. Mas também pode ser que aquela noite seja a causa de uma busca incessante pelo amor, seja possível entre eles, mas caso não seja, que suprima esse amor a ponto de não atrapalhar o atual.

Somente dez, sim, dez anos após, eles se reencontram, novamente ao acaso, desta vez, em “Antes do Pôr-do-Sol” (2004), no lançamento do livro de Jesse, o qual fala justamente sobre aquela noite em que conheceu a incrível mulher que abalou sua vida. Hoje, casado, com um filho e 33 anos, e Celine, ainda solteira, mesmo tendo amado outras pessoas. Ambos, novamente, se põem somente a conversar, antes que o voo de Jesse tenha que o levar e eles percam o contato novamente. O casal confessa, abertamente, que, mesmo tendo amado outras pessoas, nunca foi capaz de esquecer aquela noite e um ao outro. Após algumas horas conversando, o filme se encerra com uma música que Celine compôs sobre aquela noite. Ao fim, um fade-out escurece a tela, deixando a dúvida sobre o que ocorre após.

Antes do Pôr-do-Sol (2004)

Mais dez anos no futuro, em “Antes da Meia-Noite” (2013), acompanhamos o mesmo casal, agora unidos em matrimônio e com duas filhas gêmeas. Agora tendo que lidar com o que, inevitavelmente, todo casal passará, os conflitos de comunicação e os fantasmas do passado. Se antes se amavam porque não se conheciam, hoje se amam e se odeiam porque se conhecem demais.

Antes da Meia-Noite (2013)

A “busca de todo dia”

Somos todos românticos, de um jeito ou de outro buscamos o amor perfeito, inigualável, inabalável e arrebatador. Não posso ser pessimista, mas sei que nunca o encontramos, podemos estar felizes com o amor que temos, mas o amor perfeito não existe. Enquanto Jesse e Celine não se conheciam acreditavam ser o “amor da vida um do outro”, isso ainda foi hiperbolizado pela longa separação, que enalteceu, em suas próprias mentes, o amor e a paixão que sentiam, já que, sob hipótese de convivência alguma, isso poderia ser destruído, ou contrariamente desgraçado porque a idealização do amor é forte demais, em suas vidas para que haja possibilidade de felicidade com outra pessoa. Contudo, volto a citar que eles não se conheciam o suficiente.

Dez anos após, o reencontro de duas pessoas bem mais velhas e, racionalmente, maduras revive a paixão desse casal que, inicialmente mantêm distância mas que rapidamente se reaproxima. Hoje não tem mais a passividade, conforto e irresponsabilidade de dois adolescentes, Jesse é pai e está casado, apesar de nunca tê-la esquecido, Celine não casou, mas todos seus relacionamentos foram um fracasso baseada na busca por um amor que poderia nunca mais encontrar ou que,  até mesmo, poderia não ser real.

Num futuro não muito distante, agora casados e com dez anos de convivência contínua, enfrentam um casamento real, concreto, duro e cruel. Enfrentam a si mesmos, os problemas que criaram e as expectativas que não conseguiram manter sobre amor, sobre um ao outro e sobre o que queriam. Sofreram demais a perda, sonharam demais, idealizaram, engrandeceram este amor, voaram alto e agora, lá de cima, se espatifam no chão, como todo casal real que se ama.

Todos nós, assim como Jesse e Celine, buscamos algo irreal e inalcançável, baseado nos nossos anseios e nos desejos infantis de realizar algo grandioso, com alguém ou não. Chegaram em um ponto que as desavenças e os fantasmas de culpa lhes colocaram em um estado de ânimo no qual qualquer situação seria suficiente para iniciar uma briga, se atacando e avançando o limite do respeito.

O que mantêm Jesse e Celine juntos, felizmente, não são apenas as filhas, suas expectativas frustradas e a união de, talvez possa-se dizer, 30 anos. O que lhes sustenta é algo maior, um amor que, assim como acreditaram ser, é inabalável, porque aprenderam a cair e se levantar, aprenderam que, apesar do idealismo do amor que ambos criaram, o amor real vem e toma conta, mas não mata a paixão, a menos que eles próprios matem. Celine e Jesse aprenderam que podem ser felizes um com o outro, sentindo a pele palpável e, muitas vezes, fria, mas também podem se aquecer e sentir que existe amor.

Só conseguiram estar junto porque perseveraram, porque quando quiseram desistir, souberam dividir o que é real e o que é impulso e aprenderam com isso, aprenderam que não se pode desistir fácil.

Sobretudo, a dificuldade foi o que os manteve. A dificuldade de dez anos procurando a pessoa amada, a dificuldade de lidar com a pessoa amada agora presente, a dificuldade de lidar com a morte do amor e a dificuldade de reviver o amor abalado.

Erramos porque somos desistentes. O primário é que, quando algo não vai bem em nós, achamos que devemos buscar no outro ao nosso lado algo que nos faça melhorar. O secundário é que se não encontrarmos isso na pessoa ao nosso lado, procuraremos em outro qualquer. Devemos ter a consciência de que ninguém pode “tapar” nossos defeitos, mas nós mesmos devemos saber lidar com eles, e que, em suma, o outro é quem está conosco pelo motivo dele, nos temos nosso motivo para estar com o outro, seja o mesmo ou não, mas que seja sincero e forte.