Erro

Sobre Andreas Lubitz: Quando o trabalho sobrepõe a vida e a vida sucumbe ao trabalho..

Postado por Daniela Sarmento em 17/07/2018 14:56


Faz um tempo que esse caso do Co-Piloto Andreas Lubitz vem me deixando inquieta.. Não só pelo fato de ter tudo a ver com o que eu venho estudando (Suicídios), mas porque se enquadra exatamente no que mais me intriga: Suicídio no trabalho.

Que mensagem será que Lubitz queria deixar com esse gesto? Qual o papel da sociedade nessa situação?

Bom, uma coisa é certa: O Mundo do trabalho sempre criou estratégias coletivas de defesa direcionadas não apenas à percepção do medo, mas contra toda expressão de sofrimento no trabalho.. as pessoas não podem sofrer no trabalho, não choramingam, não pestanejam e, com isso, acabam transferindo tudo que acontece ali, para fora do ambiente. Então esse gesto suicidário acaba ocorrendo fora, mesmo que tenha relação com o trabalho.

O que alguém que se mata no trabalho, DENTRO do trabalho, quer dizer?

Nenhuma investigação clínica é realizada pra gente descobrir o que diabos esse funcionário estava sofrendo em sua rotina, nenhuma reação além do choque de ver se partir contra as montanhas, um avião com mais de 100 pessoas e concluir que um ato como esse “ só pode ser Depressão” ou “Coisa de Maluco”. Sim, com certeza muitas questões rondam o caso, porém, é preciso uma investigação a fundo em como as pessoas se relacionam em seu trabalho. Qual é então o significado social de um Suicídio? O que passa na cabeça dos que ficaram? Digo, os colegas de trabalho, pessoas que vivem no silêncio dessa rotina.. será que devem pensar “Quem será o próximo?”? É esse silêncio que gera uma resignação e sela ainda mais essa sensação de impotência que aumenta consideravelmente os riscos para a saúde mental dos que ficaram.

Já ouvi julgarem: “Mas ele tinha que ter dito que estava doente..” Sim, ele PODERIA ter dito.. caso tivesse forças pra isso. Corro o risco de ser apedrejada, mas pra mim a Lufthansa é a maior cúmplice desse ato tão desesperado que é, mais que atentar contra sua própria vida, atentar contra a de mais 149. A Empresa cumpriu o papel cotidiano, de se isentar de culpa ou responsabilidade, esquecendo que é seu dever cuidar da saúde de seus funcionários e – principalmente por se tratar de alguém que transporta tantas vidas – procurar saber de seus exames que deveriam ser periódicos, atribuindo o gesto ao temperamento depressivo ou patológico do suicida.

É como dizer às pessoas: "Olha, Depressão faz você se matar... Olha, Depressão faz você matar as pessoas por aí".. ÊPA ! Peraí !

Depressão pode matar SIM! Mas está longe de ser algo incontrolável e resumo para uma questão tão intrigante quanto um suicídio é. Mais ainda quando se trata de um gesto assim DENTRO DO TRABALHO.

É Preciso entender que uma pessoa pode SIM trabalhar estando em Depressão, que ela pode SIM ter uma vida normal estando em Depressão e que muitas vezes é isso que faz ela se levantar todos os dias.

No caso DO CO-PILOTO, era preciso uma investigação mais cautelosa por conta dele transportar pessoas.. algumas profissões não podem pagar pra ver no que vai dar.. é necessário ACOMPANHAMENTO.

Resumindo: As investigações sobre o suicídio e tudo que vem antes do trágico desfecho, acabam antes mesmo de começar.. e mais uma vez, ficamos com a resposta da Depressão, de problemas de relacionamento com o fim de um noivado de 7 anos e nos damos por satisfeitos.

Nos damos?

 

Caso você não se lembre: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/23/internacional/1490287858_303510.html